Você termina o café e, pouco depois, percebe o coração batendo diferente. Talvez mais rápido, talvez mais forte. A associação parece lógica: se o coração reage à bebida, será que ela está fazendo mal?
“Palpitação é um sintoma, não um diagnóstico”, explica Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).
Segundo ele, a cafeína pode aumentar a percepção dos batimentos cardíacos, provocar uma discreta aceleração da frequência cardíaca ou simplesmente tornar a pessoa mais consciente do próprio coração. Isso não significa necessariamente que exista uma arritmia. Tampouco permite concluir, apenas pelo sintoma, que aquela pessoa esteja sob maior risco de infarto, morte súbita ou outra complicação cardiovascular.
Essa diferença entre o que sentimos logo depois de consumir cafeína e o que acontece com a saúde cardiovascular ao longo do tempo está no centro de uma análise científica da American Heart Association (AHA), publicada na revista Circulation.
As evidências mostram um cenário mais complexo do que classificar o café como “bom” ou “ruim” para o coração.
O efeito imediato não conta toda a história
A cafeína é rapidamente absorvida pelo organismo e atua em diferentes sistemas. No curto prazo, pode elevar temporariamente a pressão arterial, e a intensidade dessa resposta varia entre as pessoas. O documento da AHA também reconhece palpitações entre os possíveis efeitos agudos em alguns indivíduos e destaca a variabilidade individual na tolerância e na resposta clínica.
Também existem diferenças importantes na velocidade com que cada organismo metaboliza a substância. Genética, hábitos e outros fatores contribuem para essa variação.
Isso ajuda a explicar por que a mesma quantidade de cafeína pode ser quase imperceptível para uma pessoa e produzir efeitos claros em outra.
Mas uma alteração observada minutos ou horas depois do consumo não permite concluir, sozinha, o que acontecerá depois de anos.
Quando pesquisadores acompanham consumidores de café por períodos prolongados, grande parte dos estudos não encontra aumento consistente do risco cardiovascular associado ao consumo habitual moderado. Alguns estudos observacionais encontram inclusive associações com menor risco para determinados desfechos.
Isso não significa que o café proteja o coração.
Como boa parte dessas pesquisas é observacional, outros hábitos e características dos participantes podem influenciar os resultados. Encontrar menos eventos cardiovasculares entre consumidores de café, portanto, não demonstra que a bebida tenha provocado essa diferença. A própria AHA chama atenção para limitações desse tipo de estudo, incluindo o possível healthy-user bias.
Há ainda outra dificuldade: muitos desses estudos investigaram café, e não cafeína isolada.
“Uma coisa é dizer que o consumo moderado de café está associado a determinados desfechos cardiovasculares favoráveis; outra, bem diferente, é atribuir esses efeitos à cafeína isoladamente”, afirma Victoria Boin Aguiar, médica pós-graduada em nutrologia.
O café contém, além da cafeína, diferentes compostos bioativos. Algumas associações favoráveis também foram observadas em pesquisas com café descafeinado, o que reforça a dificuldade de atribuir os resultados à cafeína.
O paradoxo das arritmias
É nas alterações do ritmo cardíaco que essa relação se torna particularmente interessante.
No ensaio clínico randomizado DECAF, pessoas com fibrilação atrial que já consumiam café e estavam programadas para cardioversão foram divididas entre consumo de café cafeinado e abstinência. No grupo orientado a consumir pelo menos uma xícara de café cafeinado por dia, o risco de recorrência da fibrilação atrial foi 39% menor.
O resultado não significa que café previna fibrilação atrial na população geral nem que possa ser usado como tratamento.
Outro ensaio randomizado encontrou um resultado diferente: durante os períodos de consumo de café cafeinado, houve aumento das contrações ventriculares prematuras, as chamadas extrassístoles ventriculares. A literatura randomizada sintetizada pela AHA mostra que o café cafeinado pode aumentar a frequência dessas contrações, embora não tenha mostrado aumento correspondente das contrações atriais prematuras.
A aparente contradição ajuda a mostrar por que colocar todas as alterações do ritmo cardíaco sob o mesmo rótulo de “arritmia” pode induzir a conclusões erradas.
A fibrilação atrial é uma arritmia sustentada que se origina nos átrios e pode ter consequências clínicas importantes, inclusive aumento do risco de AVC em determinadas pessoas. As extrassístoles ventriculares são batimentos antecipados que surgem nos ventrículos e são muito comuns.
“Não devemos traduzir automaticamente ‘mais extrassístoles’ como ‘mais risco cardiovascular’”, afirma Mattar.
No ensaio randomizado sobre os efeitos agudos do café, houve aumento das extrassístoles durante o consumo, mas o estudo não demonstrou que isso resultasse em mais eventos cardiovasculares graves.
O significado clínico depende do contexto. Extrassístoles isoladas em uma pessoa sem doença estrutural do coração têm significado diferente de uma carga elevada em alguém com sintomas, comprometimento da função cardíaca ou outra cardiopatia.
“O número isoladamente não conta toda a história; é preciso avaliar a pessoa que está por trás daquele Holter”, diz o cardiologista.
É por isso que afirmar simplesmente que “café causa arritmia” — ou que “café não causa arritmia” — diz pouco sobre o que as evidências realmente mostram.
Até o preparo pode fazer diferença
Nem todo café representa exatamente a mesma exposição.
Um exemplo é o cafestol, composto presente em maiores quantidades em preparações não filtradas e capaz de elevar o colesterol LDL. Ensaios randomizados citados pela AHA encontraram aumento do LDL com cafestol, mas não com cafeína isolada. O cafestol está presente em maior quantidade em preparações como prensa francesa, café turco ou grego e café fervido, enquanto o filtro de papel reduz substancialmente sua presença.
“Quando falamos dos efeitos cardiovasculares do café, não importa apenas quanto se bebe, mas também como esse café é preparado”, explica Victoria.
Preparações como prensa francesa, café turco ou grego e café fervido tendem a preservar mais esses compostos do que o café preparado com filtro de papel.
Para pessoas com LDL elevado ou maior risco cardiovascular, Victoria destaca que o método de preparo pode ser mais uma variável a considerar, principalmente quando o consumo é frequente ou em maior volume.
Afinal, quanto é consumo moderado?
A American Heart Association considera até aproximadamente 400 mg de cafeína por dia — ou cerca de três a cinco xícaras de café de aproximadamente 240 mL — uma referência de consumo moderado geralmente seguro para a maioria dos adultos.
Mas transformar esse número em xícaras pode criar uma falsa precisão.
“Uma xícara de café não representa uma dose padronizada de cafeína”, afirma Victoria.
A quantidade varia conforme o tipo e a quantidade de grãos, método de preparo, proporção entre café e água, tempo de extração e volume da bebida.
Os 400 mg também não devem ser interpretados como uma meta diária ou como uma fronteira universal entre o que é seguro e o que oferece risco. A resposta à cafeína varia de pessoa para pessoa.
Um energético não equivale a um café
A distinção se torna ainda mais importante quando entram em cena os energéticos e produtos com cafeína concentrada.
“Ter a mesma quantidade de cafeína no rótulo não torna um energético equivalente a uma xícara de café”, afirma Victoria.
Grande parte das evidências sobre consumo habitual e risco cardiovascular foi produzida a partir do café. Esses resultados não podem ser automaticamente transferidos para energéticos.
Esses produtos podem ter concentrações elevadas de cafeína e conter outros ingredientes biologicamente ativos. Além disso, estudos com energéticos encontraram efeitos cardiovasculares que justificam cautela, embora a base de evidências seja menor do que a disponível para o café. A conclusão da AHA é explícita ao afirmar que possíveis benefícios observados com fontes naturais não devem ser extrapolados para produtos sintéticos ou cafeína em altas doses; os dados disponíveis sobre energéticos, embora limitados, tendem a sugerir dano cardiovascular.
Isso não significa que todo energético provoque um problema cardíaco. Significa que não há base para considerar café e energético equivalentes apenas porque ambos contêm cafeína.
A mesma cautela vale para doses muito elevadas e produtos concentrados.
Quando a resposta precisa ser individual
Dados obtidos em grandes populações ajudam a compreender o risco, mas não determinam sozinhos o que uma pessoa específica deve fazer.
Mattar considera especialmente importante individualizar o consumo quando existe uma relação clara e repetitiva entre cafeína e palpitações; diante de extrassístoles ventriculares frequentes ou muito sintomáticas; em pessoas com arritmias conhecidas ou doença cardíaca estrutural; e nos casos de hipertensão importante ou não controlada.
Isso não significa que todas essas pessoas precisem abandonar o café. Significa que uma referência populacional como 400 mg por dia não substitui a avaliação do contexto clínico.
E sentir palpitação também não confirma que houve uma arritmia.
Quando os sintomas são frequentes ou importantes, explica Mattar, documentar o ritmo cardíaco — eventualmente com eletrocardiograma ou Holter — é o que permite verificar se realmente existe uma alteração.
A pergunta “café faz bem ou mal ao coração?”, portanto, oferece apenas duas respostas para uma relação que depende de muitas variáveis.
Para a maioria dos adultos, o consumo habitual moderado de cafeína é considerado geralmente seguro. Isso não transforma o café em estratégia de prevenção cardiovascular, não significa que todas as fontes de cafeína sejam equivalentes e não elimina as diferenças individuais. A síntese da AHA ressalta justamente a heterogeneidade dos efeitos e a necessidade de avançar na individualização das recomendações.
Da mesma forma, perceber o coração bater diferente depois de uma xícara não revela, sozinho, o que aquela bebida representa para a saúde cardiovascular no longo prazo.
Entre a sensação imediata e o risco, importam a quantidade consumida, a fonte da cafeína, a frequência, o preparo, o tipo de efeito cardiovascular e as características de quem está bebendo.
Referências científicas
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