A atividade física pode estar ligada a mecanismos envolvidos no envelhecimento dos ovários. Um estudo publicado na revista científica Nature Aging combinou dados de grandes populações humanas, análises genéticas e experimentos em camundongos para investigar a relação entre exercício, adiponectina e reserva ovariana.
Os resultados experimentais chamam atenção. Nos animais, o exercício foi associado à preservação de um número maior de folículos primordiais e a alterações em vias moleculares envolvidas na ativação folicular.
Para mulheres, porém, a interpretação precisa ser mais cautelosa.
Os dados humanos mostram associações. Eles não demonstram que praticar exercício preserve a reserva ovariana, prolongue a fertilidade ou retarde a menopausa.
Para a ginecologista e obstetra Dra. Vanessa Cairolli, uma das contribuições mais relevantes do trabalho está justamente em avançar da observação epidemiológica para a investigação dos possíveis mecanismos envolvidos.
Segundo ela, a combinação de grandes bases populacionais com modelos experimentais permite apontar vias biológicas específicas, especialmente a participação da adiponectina produzida no próprio ovário e a modulação da via mTOR. São mecanismos que podem orientar novas pesquisas sobre a resposta do microambiente ovariano à atividade física.
O que apareceu nos dados humanos
Os pesquisadores analisaram 152.435 participantes do UK Biobank e outras 12.418 do National Health and Nutrition Examination Survey, o NHANES, dos Estados Unidos.
Nas duas bases, mulheres na pré-menopausa apresentaram níveis de atividade física mais elevados do que aquelas na pós-menopausa.
No UK Biobank, entre mulheres que já haviam passado pela menopausa, níveis mais elevados de atividade física também apareceram associados a uma idade ligeiramente mais tardia da menopausa.
As associações permaneceram após ajustes estatísticos para diferentes fatores.
Isso, entretanto, não estabelece uma relação de causa e efeito.
O desenho dessa parte do estudo é transversal. Dessa forma, não é possível saber apenas a partir desses dados se a atividade física influencia o momento da menopausa ou se outras diferenças entre mulheres pré e pós-menopáusicas contribuem para a associação observada.
Também permanece possível a chamada causalidade reversa: mulheres que ainda não passaram pela menopausa podem, por diferentes razões, ser mais fisicamente ativas.
Vanessa Cairolli ressalta que esse tipo de estudo identifica correlações, mas não permite afirmar que o exercício seja, isoladamente, responsável por adiar a menopausa.
Isso não diminui a importância da atividade física para a saúde feminina. Seus benefícios para composição corporal, massa muscular e óssea, metabolismo e qualidade de vida durante a transição menopáusica estão estabelecidos independentemente de qualquer eventual efeito sobre a cronologia da menopausa.
O que aconteceu nos camundongos
Foi na etapa experimental que os pesquisadores conseguiram testar diretamente a hipótese.
Camundongos adultos foram submetidos a exercício em esteira durante 30 minutos por dia, cinco dias por semana, por um mês. Ao final, os animais exercitados apresentaram, em média, 1.110 folículos primordiais, contra 745 no grupo controle.
O número total de folículos também foi maior, assim como os níveis de hormônio anti-mülleriano, o AMH.
No modelo animal, portanto, o exercício reduziu a perda de folículos primordiais e preservou indicadores da reserva ovariana.
Essa evidência é experimental, mas continua sendo uma evidência obtida em camundongos.
A fisiologia reprodutiva dos animais é diferente da humana, o que impede transportar diretamente o resultado para mulheres.
A adiponectina pode ser parte da explicação
Os pesquisadores investigaram então um possível mecanismo biológico para o fenômeno.
O foco recaiu sobre a adiponectina, proteína mais conhecida por sua produção no tecido adiposo e por seu papel no metabolismo.
O estudo mostrou que células presentes no próprio ovário também produzem adiponectina, com expressão particularmente elevada nas células da granulosa.
Nos camundongos submetidos ao exercício, os pesquisadores encontraram níveis maiores de adiponectina tanto no sangue quanto nos ovários. Também observaram maior expressão do receptor ADIPOR1 no tecido ovariano.
Esses resultados sugeriram que o ovário não seria apenas um receptor passivo das alterações metabólicas provocadas pelo exercício. O próprio ambiente ovariano poderia participar dessa sinalização.
Para Vanessa Cairolli, esse é um avanço conceitual importante: o estudo fornece alvos mecanísticos concretos para investigar como o microambiente ovariano responde às alterações sistêmicas associadas à atividade física.
Quando a adiponectina caiu, a proteção também diminuiu
Um dos experimentos mais importantes do estudo foi reduzir especificamente a adiponectina nos ovários dos animais.
Com essa intervenção, o efeito protetor associado ao exercício sobre a perda de folículos primordiais diminuiu aproximadamente 76% em comparação com os animais sem essa redução.
O resultado reforça a participação da adiponectina ovariana no mecanismo observado.
Mas há uma diferença essencial entre essa demonstração experimental e o que se sabe em mulheres.
Nos dados humanos, os pesquisadores não acompanharam prospectivamente a produção de adiponectina nos ovários nem a evolução da reserva folicular ao longo do tempo. Também não demonstraram que a adiponectina seja o mecanismo causal ligando exercício e envelhecimento ovariano em seres humanos.
Assim, a sequência exercício → adiponectina → menor ativação folicular → envelhecimento ovariano mais lento tem forte apoio no modelo animal, mas permanece uma hipótese translacional em mulheres.
A via mTOR
Outra peça investigada foi a via de sinalização mTOR.
Essa via participa de diversos processos celulares e está envolvida na ativação dos folículos primordiais.
Nos ovários dos animais exercitados, houve menor ativação de componentes relacionados à mTOR. Experimentos complementares indicaram que a adiponectina pode contribuir para reduzir a ativação dos folículos por meio da modulação dessa via.
A hipótese faz sentido biologicamente porque a reserva de folículos primordiais é limitada. Uma ativação mais lenta poderia contribuir para conservar essa população por mais tempo.
Isso ainda não significa, porém, que esse mecanismo tenha sido demonstrado clinicamente em mulheres.
Um composto experimental reforçou a hipótese
Os pesquisadores também utilizaram o AdipoRon, um composto experimental que ativa receptores de adiponectina.
Nos camundongos tratados, houve maior número de folículos primordiais e prolongamento da vida reprodutiva em comparação com os controles.
O experimento reforça o interesse científico pela via da adiponectina e abre possibilidades para novas investigações.
Não significa que exista atualmente um medicamento aprovado para retardar o envelhecimento ovariano em mulheres.
Reserva ovariana não é fertilidade
Esse é um dos limites mais importantes para interpretar os resultados.
“Reserva ovariana não é sinônimo de fertilidade”, afirma Vanessa Cairolli.
Preservar um número maior de folículos primordiais significa, do ponto de vista histológico, que o estoque quantitativo de folículos foi menos consumido em determinado cenário experimental.
A fertilidade humana, entretanto, depende de muito mais do que quantidade.
Um fator fundamental é a qualidade dos oócitos — incluindo sua competência genética e celular — que sofre forte influência da idade.
Por isso, um ovário com maior número de folículos não necessariamente terá maior capacidade de gerar uma gestação bem-sucedida.
Segundo Vanessa, extrapolar diretamente uma maior contagem folicular para “maior fertilidade” representa um erro conceitual.
É possível dizer que o envelhecimento ovariano foi atrasado?
Em termos clínicos, ainda não.
Vanessa Cairolli considera que esse limite deve ser tratado de forma estrita.
Para afirmar que houve efetivamente um atraso do envelhecimento reprodutivo seria necessário demonstrar, entre outros aspectos, preservação da competência dos oócitos, desenvolvimento embrionário viável e desfechos reprodutivos relevantes.
O estudo atual não fornece essas respostas em mulheres.
O que os resultados permitem sugerir é uma modulação favorável de parâmetros do microambiente ovariano e de mecanismos metabólicos associados ao envelhecimento.
Transformar isso em demonstração de rejuvenescimento ovariano ou atraso clínico do relógio reprodutivo iria além da evidência disponível.
O protocolo dos animais não é uma prescrição
Também seria incorreto converter os 30 minutos de esteira realizados pelos camundongos, cinco vezes por semana, em uma recomendação específica para preservar os ovários de mulheres.
O estudo não estabeleceu uma relação dose–resposta em humanos e não comparou diferentes modalidades, volumes ou intensidades de exercício para esse objetivo.
Além disso, metabolismo, expectativa de vida e fisiologia reprodutiva variam substancialmente entre espécies.
O endocrinologista Clayton Macedo, médico do esporte pela UNIFESP e do Einstein Hospital Israelita, destaca que a plausibilidade biológica observada é interessante, mas os resultados não autorizam uma prescrição de exercício destinada especificamente a preservar a reserva ovariana ou retardar a menopausa.
O protocolo experimental serve para testar uma hipótese biológica. Não para estabelecer uma conduta clínica.
Nem sempre mais exercício significa mais benefício
A própria relação entre atividade física e função reprodutiva depende do contexto.
Exercício regular integra as recomendações gerais para promoção da saúde. Mas treinamento excessivo, especialmente quando associado à baixa disponibilidade energética, pode produzir o efeito oposto sobre o sistema reprodutivo.
Alterações menstruais, anovulação e amenorreia são conhecidas em situações de desequilíbrio entre demanda energética, exercício e ingestão nutricional.
Portanto, não existe uma relação simples em que mais exercício corresponda necessariamente a maior proteção da função ovariana.
O que seria necessário demonstrar em mulheres
Para responder se a atividade física realmente modifica a velocidade do envelhecimento ovariano, seriam necessários estudos prospectivos capazes de acompanhar mulheres ao longo do tempo.
Esses estudos teriam de avaliar não apenas marcadores quantitativos de reserva ovariana, mas também parâmetros relacionados à qualidade dos oócitos e, idealmente, desfechos reprodutivos clinicamente relevantes.
Vanessa Cairolli lembra, porém, que isso não significa esperar por uma suposta fórmula capaz de interromper o relógio biológico.
A mulher nasce com um estoque finito de oócitos, que diminui progressivamente ao longo da vida. O exercício não cria novos óvulos nem deve ser apresentado como uma forma de congelar ou reverter esse processo.
O papel mais bem estabelecido do estilo de vida está na saúde metabólica e sistêmica.
Atividade física regular, alimentação adequada, redução do sedentarismo e controle de fatores associados à inflamação contribuem para um ambiente fisiológico mais favorável e para uma transição menopáusica com melhor saúde e qualidade de vida.
O que o estudo realmente acrescenta
A principal contribuição do trabalho é mostrar uma possível conexão entre atividade física, metabolismo e envelhecimento dos ovários e investigar experimentalmente um mecanismo capaz de explicá-la.
A adiponectina aparece como uma peça importante dessa hipótese.
Nos camundongos, a cadeia de evidências é consistente: exercício, aumento da sinalização relacionada à adiponectina, modulação da via mTOR e maior preservação dos folículos primordiais.
Em mulheres, a pergunta continua aberta.
Serão necessários estudos prospectivos para determinar se diferentes níveis de atividade física realmente modificam a trajetória do envelhecimento ovariano, se alteram a reserva folicular ao longo dos anos e se a adiponectina participa desse processo.
Até que essas respostas existam, a pesquisa deve ser entendida como uma evidência translacional promissora — e não como demonstração de que fazer exercício retarde a menopausa ou prolongue a fertilidade feminina.
Estudo-base
Li B, Zheng N, Luo T, et al. Physical activity delays ovarian aging in part through adiponectin-related signaling pathways. Nature Aging. DOI: 10.1038/s43587-026-01177-0.