Depois dos 70 anos, vale a pena começar uma estatina para prevenir um primeiro evento cardiovascular? A resposta passa pela saúde e pela vida de cada pessoa: as doenças que já tem, os medicamentos que toma, sua autonomia, sua expectativa de vida e o que considera prioridade.
O STAREE acompanhou 9.971 pessoas com 70 anos ou mais e encontrou redução significativa de eventos cardiovasculares maiores entre aquelas que receberam atorvastatina. Mas o tratamento não demonstrou prolongar a vida sem demência ou incapacidade física persistente. Para avaliar essa chamada sobrevida livre de incapacidade, os pesquisadores consideraram a ocorrência de morte por qualquer causa, demência ou incapacidade física persistente.
Os resultados foram publicados no New England Journal of Medicine e apresentados no ESC Congress 2026, da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC).
O estudo ajuda a responder à pergunta sobre prevenção depois dos 70 anos. A decisão de começar o tratamento, contudo, continua sendo individual.
Como o estudo STAREE avaliou a atorvastatina
Realizado na Austrália, o STAREE foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Isso significa que a distribuição dos participantes entre os grupos ocorreu por sorteio e que participantes e pesquisadores não sabiam quem recebia o medicamento ou o placebo.
Participaram adultos com pelo menos 70 anos, vivendo na comunidade e sem doença cardiovascular clínica, diabetes ou demência. Eles foram distribuídos aleatoriamente para receber atorvastatina 40 mg por dia ou placebo.
A mediana de acompanhamento foi de 5,9 anos: metade dos participantes foi acompanhada por menos tempo, e metade por mais tempo.
O estudo investigou prevenção primária, em pessoas sem doença cardiovascular clínica conhecida. Os participantes eram, em geral, independentes e relativamente saudáveis; a amostra não representava todos os perfis de idosos.
O que significa a redução de eventos cardiovasculares
Para avaliar o benefício cardiovascular, os pesquisadores acompanharam um conjunto de eventos: morte cardiovascular, infarto não fatal, acidente vascular cerebral (AVC) não fatal ou revascularização coronariana — procedimento para restabelecer o fluxo de sangue nas artérias do coração. A análise considerou o primeiro desses eventos em cada participante. É o que os pesquisadores chamam de desfecho composto.
O resultado favoreceu a atorvastatina. Durante o acompanhamento, 297 participantes desse grupo apresentaram um evento do composto, ante 412 no grupo placebo.
As taxas foram de 10,9 e 15,5 eventos por 1.000 pessoas-ano, respectivamente. Essa medida leva em conta tanto o número de participantes quanto o tempo em que foram acompanhados.
Entre os 4.984 participantes destinados à atorvastatina e os 4.987 destinados ao placebo, as proporções com esse evento foram de aproximadamente 6,0% e 8,3%. A diferença bruta foi de cerca de 2,3 pontos percentuais. Essas proporções mostram o que aconteceu durante o estudo. Como o tempo de acompanhamento pode variar entre os participantes, elas não equivalem a uma estimativa de risco ajustada para uma mesma duração.
A análise que considera o tempo até o primeiro evento encontrou um hazard ratio (HR) de 0,70, com intervalo de confiança de 95% de 0,61 a 0,82 e P<0,001. Isso corresponde a aproximadamente 30% de redução relativa do hazard — a taxa instantânea de ocorrência do desfecho entre os participantes ainda sem esse evento — ao longo do acompanhamento. NEJM.
Os 30% se referem ao conjunto de eventos. Não representam uma redução absoluta de 30%, nem a mesma redução para cada componente.
Quando os componentes são examinados separadamente, o sinal favorável aparece principalmente em infarto do miocárdio e revascularização coronariana. O estudo não demonstrou redução estatisticamente significativa isolada de AVC ou morte cardiovascular. Os resultados de cada componente, porém, vêm de análises secundárias. Seus intervalos de confiança não foram ajustados para múltiplas comparações; por isso, exigem mais cautela do que o resultado principal do conjunto.
E a vida sem demência ou incapacidade?
O STAREE também investigou se o tratamento permitiria viver mais tempo sem demência ou incapacidade física persistente. Nesse desfecho, que incluiu morte por qualquer causa, não houve benefício estatisticamente significativo.
O desfecho ocorreu em 637 participantes no grupo atorvastatina e 676 no placebo: HR 0,94; IC95% 0,84–1,05; P=0,25. A diferença não atingiu significância estatística. Isso não prova ausência definitiva de qualquer efeito, mas tampouco permite prometer maior longevidade ou prevenção de demência. NEJM.
Para a cardiologista Elena Arbelo, especialista indicada pela ESC para comentar o estudo, os dois desfechos respondem a perguntas diferentes. O primeiro mede a ocorrência de eventos cardiovasculares; o segundo investiga um resultado mais amplo, que envolve sobrevivência, cognição e funcionalidade.
“Esses achados não são contraditórios”, afirma Arbelo, em tradução do inglês.
O cardiologista Raul Dias, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e ex-presidente do Departamento de Aterosclerose da entidade, também destaca que a funcionalidade na velhice depende de múltiplos fatores. Em sua avaliação, reduzir o colesterol não necessariamente produzirá uma diferença detectável nesse resultado mais amplo.
A geriatra independente Paola Teruya lembra que, nessa etapa da vida, várias causas podem comprometer a capacidade de realizar as atividades do dia a dia. Paola também levanta a hipótese de que o acompanhamento possa ter sido curto para demonstrar um efeito sobre esse desfecho. É uma possibilidade, não uma explicação comprovada: o STAREE não demonstrou melhora estatisticamente significativa da sobrevida livre de incapacidade.
Em resposta ao Prime Health Report, Sophia Zoungas, pesquisadora do STAREE, destacou a necessidade de considerar o contexto de cada paciente.
“Acreditamos que é importante que adultos mais velhos discutam esses achados com seu médico ou profissional de saúde e tomem uma decisão informada com base em suas circunstâncias e prioridades individuais.”
Segundo Zoungas, embora o estudo não tenha demonstrado melhora na sobrevida livre de incapacidade, também não identificou evidência de dano, algo que ela considera tranquilizador para pacientes mais velhos e seus médicos.
A fala de Zoungas precisa ser lida junto aos dados de segurança. Ela não significa que o tratamento seja livre de efeitos adversos ou que sua segurança seja, de modo geral, equivalente à do placebo.
Efeitos adversos da atorvastatina no STAREE
Entre os participantes que receberam pelo menos uma dose, eventos adversos graves considerados pelo médico do estudo como relacionados ao tratamento ocorreram em 131 de 4.876 pessoas com atorvastatina e 129 de 4.847 com placebo: 2,7% em ambos os grupos. Esses números se referem aos eventos classificados como relacionados ao tratamento, não a todos os problemas de saúde ocorridos durante o acompanhamento.
Nessa mesma avaliação de eventos considerados relacionados ao tratamento, o estudo registrou maior frequência de eventos musculoesqueléticos, hepatobiliares e relacionados a diabetes entre participantes que receberam atorvastatina. NEJM.
A interrupção do tratamento por intolerância associada a eventos adversos também foi um pouco mais frequente com o medicamento: aproximadamente 7,2%, ante 6,1% com placebo.
Ao longo dos anos, houve ainda considerável interrupção da medicação do estudo, e participantes originalmente destinados ao placebo começaram a usar estatinas fora do protocolo.
Assim, a diferença entre os tratamentos efetivamente usados pelos grupos mudou ao longo do tempo. Isso importa para interpretar os resultados, mas não permite afirmar que o benefício da atorvastatina teria sido maior se todos tivessem mantido o tratamento sorteado.
Por que o desfecho cardiovascular mudou
O desfecho cardiovascular originalmente previsto reunia morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal. Durante o ensaio, os pesquisadores acrescentaram revascularização coronariana ao desfecho cardiovascular primário.
A mudança ocorreu antes do fechamento do banco de dados e enquanto os investigadores permaneciam sem conhecimento da distribuição dos resultados entre os grupos de atorvastatina e placebo. Segundo a documentação do estudo, a taxa global de eventos estava abaixo da esperada. A alteração buscou preservar o poder estatístico do ensaio, isto é, sua capacidade de detectar uma diferença entre os grupos.
Questionada pelo PHR, Zoungas afirmou que a decisão foi tomada pelo comitê diretor do estudo e que o desfecho cardiovascular ampliado foi escolhido como primário bem antes do fechamento do banco de dados, por ser considerado clinicamente relevante para adultos mais velhos.
O composto cardiovascular original, sem revascularização, também favoreceu a atorvastatina. Esse composto apresentou HR 0,73 (IC95% 0,62–0,87). Trata-se, porém, de um desfecho secundário, com intervalo não ajustado para múltiplas comparações. Seu resultado reforça a consistência do sinal cardiovascular; não equivale a uma confirmação primária adicional.
A quem os resultados do STAREE se aplicam?
Para entender a quem os resultados se aplicam, é importante voltar ao perfil de quem participou. A média de idade foi de 74,7 anos, e as pessoas em idades muito avançadas representaram uma parcela menor da amostra. O ensaio também excluiu pessoas com doença cardiovascular clínica, diabetes ou demência.
Perguntada especificamente sobre a possibilidade de extrapolar os resultados, Zoungas reconheceu a limitação:
“Destacamos no artigo que esses achados podem não ser generalizáveis para todos os grupos populacionais, e isso deve ser considerado na interpretação dos resultados.”
O STAREE, portanto, não permite estender automaticamente esse balanço de benefícios e riscos a uma pessoa de 85 ou 90 anos com fragilidade, múltiplas doenças e vários medicamentos em uso.
Paola ilustra essa diferença com duas situações clínicas. De um lado, uma pessoa de 85 anos robusta, independente e com poucas doenças, para quem a prevenção pode fazer sentido. De outro, alguém da mesma idade com fragilidade, múltiplas doenças, dependência nas atividades diárias e polifarmácia — uso de vários medicamentos. Na avaliação da geriatra, o desenho do STAREE não permite transportar diretamente os resultados para esse segundo perfil. A comparação é um exemplo clínico de individualização; não demonstra que o ensaio tenha comprovado benefício específico para pessoas de 85 anos.
“Na geriatria, a idade cronológica, isoladamente, não deve determinar a prescrição.”
Ela considera quatro eixos: risco cardiovascular individual; funcionalidade e presença de fragilidade ou pré-fragilidade; expectativa de vida; e prioridades do paciente. Quanto maiores a fragilidade, o número de doenças e a quantidade de medicamentos, explica, mais importante é avaliar se o benefício esperado faz sentido para o tempo de vida estimado e os objetivos daquela pessoa.
O STAREE pode mudar as recomendações sobre estatinas?
O STAREE acrescenta evidência randomizada sobre uma população com representação limitada em ensaios cardiovasculares. Sua incorporação às recomendações, porém, depende da avaliação das sociedades médicas.
Arbelo avalia que os resultados têm potencial para fortalecer as evidências consideradas em futuras recomendações europeias. A especialista defende que essa incorporação preserve a análise do risco cardiovascular, da fragilidade, das doenças associadas, da expectativa de vida e das preferências do paciente. Sua avaliação não constitui anúncio de mudança de diretriz nem posição institucional formal da ESC.
Para a prática brasileira, há outra questão: como aplicar os resultados de um estudo australiano a pacientes atendidos em condições diferentes?
Para Dias, o estudo acrescenta evidência relevante para a prevenção cardiovascular e pode motivar reavaliações das recomendações da SBC e de outras sociedades médicas. As respostas foram encaminhadas pela assessoria da SBC, com atribuição autorizada ao cardiologista. A expectativa expressa por ele não equivale a uma revisão já aprovada pela entidade.
A idade não decide sozinha
Em adultos com 70 anos ou mais semelhantes aos participantes do ensaio, a atorvastatina reduziu eventos cardiovasculares maiores.
Mas o estudo não mostrou que esse benefício se traduza, durante o período acompanhado, em prolongamento estatisticamente significativo da vida sem demência ou incapacidade física persistente.
Também não demonstrou que todas as pessoas acima de determinada idade devam receber o medicamento.
A pergunta que fica para a consulta é: para esta pessoa acima dos 70 anos, o benefício cardiovascular esperado justifica começar e manter um tratamento preventivo de longo prazo?
Paola defende que essa conversa inclua o paciente: o benefício esperado precisa ser ponderado junto ao peso do tratamento na rotina e aos objetivos de vida. O STAREE oferece mais informação para essa decisão compartilhada.
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Financiamento e transparência
O STAREE recebeu financiamento do National Health and Medical Research Council, da Heart Foundation of Australia e da Monash University. Segundo o artigo e o apêndice, o ensaio não teve participação comercial ou da indústria. Zoungas declarou consultorias para empresas farmacêuticas; o formulário informa pagamentos à Monash University em quatro desses vínculos e ao The George Institute no vínculo com a Sanofi. A declaração relativa à AstraZeneca não especifica o destinatário do pagamento. Financiamento do ensaio e relações individuais são informações distintas; esses vínculos, por si sós, não demonstram interferência nos resultados. Artigo e documentos complementares do NEJM.
Referências e fontes
1. Artigo principal: Zoungas S, Wolfe R, Moran C, et al.; STAREE Investigators. Atorvastatin, Cardiovascular Events, and Disability-free Survival in Older Adults. New England Journal of Medicine. Publicado on-line em 29 de agosto de 2026. DOI: 10.1056/NEJMoa2607314. Resumo no PubMed.
2. Documentação complementar do artigo: apêndice suplementar, protocolo e plano de análise estatística, declarações de conflitos de interesse e declaração de compartilhamento de dados. Materiais associados ao artigo no NEJM, consultados na apuração.
3. Protocolo publicado em 2023: Zoungas S, Curtis A, Spark S, et al. Statins for extension of disability-free survival and primary prevention of cardiovascular events among older people: protocol for a randomised controlled trial in primary care (STAREE trial). BMJ Open. 2023;13:e069915. DOI: 10.1136/bmjopen-2022-069915. Esse documento descreve o planejamento anterior às alterações do desfecho discutidas nesta reportagem; a versão final foi conferida na documentação do artigo do NEJM.
Fontes ouvidas pelo PHR: Sophia Zoungas, pesquisadora do STAREE; Elena Arbelo, especialista indicada pela ESC; Raul Dias, membro da SBC e ex-presidente de seu Departamento de Aterosclerose; e Paola Teruya, geriatra independente. Os comentários foram fornecidos ao Prime Health Report para esta reportagem. As avaliações de Arbelo e Dias são atribuídas aos especialistas e não constituem, por si, posições institucionais da ESC ou da SBC.