Duas pessoas fazem o mesmo alongamento. Uma avança com relativa facilidade. A outra para muito antes. A explicação parece óbvia: quem chega mais longe deve ter músculos mais compridos, tendões mais “soltos” ou tecidos naturalmente menos rígidos.
Mas flexibilidade não funciona exatamente assim.
Uma revisão publicada em 2026 na revista Sports Medicine, assinada pela Dra. Camila D. Lima, pesquisadora do Instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora visitante na The University of Queensland, e por Anthony J. Blazevich, reuniu evidências sobre os mecanismos que determinam até onde conseguimos movimentar uma articulação e quanto os tecidos resistem durante esse movimento.
A primeira conclusão importante é que essas duas coisas não são iguais.
Na ciência, uma delas é chamada de amplitude máxima de movimento (ROMmax). A outra, de rigidez (stiffness). Entender a diferença ajuda a explicar por que alguém pode ficar mais flexível sem que músculos e tendões tenham simplesmente se tornado menos rígidos.
A questão, então, muda: quando conseguimos ir mais longe em um alongamento, o que realmente mudou?
Flexibilidade não é uma coisa só
Imagine que você tente tocar os pés com as mãos. Existe o ponto máximo que consegue alcançar. Mas existe também a resistência que músculos e outras estruturas oferecem enquanto você avança.
São fenômenos relacionados, mas diferentes.
ROMmax corresponde à amplitude máxima alcançada por uma articulação. Stiffness descreve a resistência encontrada durante o movimento, resultado das propriedades passivas dos tecidos e, dependendo das condições em que é medida, também da atividade muscular.
Essa diferença importa porque as duas variáveis nem sempre mudam juntas. É possível aumentar ROMmax sem observar uma redução equivalente da rigidez.
Em termos simples: chegar mais longe não prova, por si só, que os tecidos ficaram menos rígidos.
Lima, coautora da revisão, afirma: “É importante destacar que uma pessoa pode se tornar mais flexível sem que isso signifique, necessariamente, que suas fibras musculares ficaram permanentemente mais longas.”
Segundo ela, o aumento da amplitude após um período de treinamento pode resultar de diferentes mecanismos, entre eles adaptações periféricas e mudanças na tolerância ao alongamento.
O músculo não é um elástico
Quando pensamos em alongamento, é tentador imaginar o músculo como uma faixa de borracha: puxamos repetidamente e, com o tempo, ela fica mais comprida.
O músculo é muito mais complexo.
As fibras musculares estão organizadas em grupos chamados fascículos e envolvidas por uma rede de colágeno e outros componentes conhecida como matriz extracelular. Essa estrutura ajuda a transmitir forças e participa da resistência oferecida pelo músculo quando ele é alongado.
A revisão aponta a matriz extracelular como uma importante fonte dessa resistência passiva. Alguns dos experimentos usados para compreender esse mecanismo, porém, foram realizados em animais ou em preparações laboratoriais. Isso impede transportar diretamente cada resultado para seres humanos.
Lima explica que a fáscia muscular integra essa matriz e envolve diferentes níveis de organização do músculo. Com o treinamento, alterações na organização e nas propriedades mecânicas da matriz extracelular podem ser um dos mecanismos periféricos envolvidos no aumento da amplitude. A própria literatura, porém, ainda precisa definir melhor quanto essas adaptações contribuem em humanos.
Até a organização das fibras pode fazer diferença. Durante um alongamento, os fascículos podem mudar de orientação, e não apenas de comprimento.
O que acontece dentro do músculo, portanto, está longe de ser um simples processo de “esticar” um tecido.
O que os tendões revelam
Os tendões tornam essa história ainda mais interessante.
A lógica intuitiva diria que, se uma pessoa consegue chegar mais longe, seus tendões devem ter ficado menos rígidos.
Mas não necessariamente.
A revisão reúne estudos em que a amplitude máxima aumentou sem uma redução correspondente da rigidez tendínea. Em outras palavras, o ganho de ROMmax pode acontecer mesmo sem a mudança que esperaríamos encontrar no tendão.
Isso não significa que os tendões sejam irrelevantes. Significa algo mais específico: um tendão menos rígido não parece ser condição obrigatória para alcançar uma amplitude maior.
E é justamente aí que outra parte da história começa.
O corpo sente o alongamento
À medida que avançamos em um movimento, não são apenas os tecidos que estão sendo deformados. O corpo também recebe informações sobre o que está acontecendo.
Existem receptores que detectam aspectos relacionados ao comprimento muscular e às mudanças desse comprimento. Outros fornecem informações sobre posição, movimento e pressão. Há ainda os nociceptores, envolvidos na sinalização de estímulos potencialmente nocivos.
Esses sinais seguem para o sistema nervoso.
A revisão reúne experimentos com reflexos, vibração e outras formas de manipular essas informações sensoriais. O resultado é um sistema mais complexo do que a ideia de um único mecanismo capaz de estabelecer o limite do movimento: algumas adaptações neurais aparecem depois do alongamento, mas aumentos de ROMmax também foram encontrados sem alterações correspondentes em determinadas respostas reflexas.
Lima observa que adaptações relacionadas ao sistema nervoso, inclusive em nível medular, vêm sendo investigadas, mas a literatura ainda é mais extensa para mecanismos musculares e periféricos. Ela considera possível que o treinamento modifique a maneira como sinais sensoriais são processados, influenciando a resposta ao alongamento e a tolerância a amplitudes maiores, mas ressalta que as evidências em nível cerebral ainda são mais iniciais.
Não há, portanto, evidência de um único “sensor da flexibilidade” ou de um botão fisiológico que determine sozinho até onde podemos chegar.
Por que paramos?
Pense novamente naquele movimento em direção aos pés.
Em algum momento, você para.
Mas por quê?
O músculo chegou ao seu limite físico? Surgiu tensão? Pressão? Desconforto? Dor?
É aqui que entra um dos conceitos centrais da revisão: stretch tolerance, ou tolerância ao alongamento.
O ponto em que uma pessoa interrompe voluntariamente um alongamento não precisa representar uma barreira mecânica absoluta. As sensações que aparecem conforme o movimento avança também podem participar da definição desse limite.
O Dr. Lewis Ingram, pesquisador da Adelaide University e autor principal de uma revisão sistemática e meta-análise sobre mecanismos de ganho de amplitude após alongamento estático, foi ouvido como especialista independente. Ele acrescenta uma distinção temporal, em tradução do inglês:
“Em resumo, as melhoras imediatas (isto é, agudas) na amplitude de movimento que observamos após o alongamento se devem em grande parte à diminuição da rigidez, enquanto as melhoras de longo prazo (isto é, crônicas) se devem principalmente a uma maior tolerância ao desconforto que percebemos ao alongar um músculo em comprimentos maiores.”
Essa distinção não significa que exista um único mecanismo para todos os tipos de treinamento, articulações ou indivíduos. O Prof. Dr. Christian Emmanuel Torres Cabido, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), ouvido como especialista independente em mecanismos mecânicos, sensoriais e neurais relacionados à flexibilidade, reforça essa cautela:
“Mecanismos sensoriais e mecânicos podem atuar juntos, com pesos diferentes conforme a dose e o método.” O mesmo resultado observável — alcançar uma amplitude maior — pode, portanto, ter explicações diferentes conforme o horizonte temporal e o contexto.
Mas há outra distinção importante: tolerância ao alongamento não significa simplesmente tolerância à dor.
A revisão discute estudos que relacionam tolerância à dor e ROMmax, mas também mostra que ainda existem questões em aberto sobre a interação entre dor, atividade muscular e resistência ao movimento.
Portanto, entender que a percepção participa do movimento não significa concluir que alguém deveria aprender a suportar mais dor para ficar mais flexível. A dor não deve ser deliberadamente ignorada ou ultrapassada durante o exercício com base nesses achados.
E o cérebro?
Se as informações produzidas durante o alongamento chegam ao sistema nervoso, uma pergunta inevitavelmente aparece: processos cerebrais também podem participar desse limite?
A resposta exige cautela.
Lima e Blazevich propõem que informações proprioceptivas, nociceptivas e mecanorreceptivas sejam processadas em níveis superiores do sistema nervoso. Esse processamento pode participar da tolerância ao alongamento e, potencialmente, influenciar a decisão de continuar ou interromper o movimento.
Isso acrescenta uma dimensão interessante ao problema: ROMmax talvez não dependa apenas das propriedades físicas dos tecidos.
Mas existe uma diferença importante entre uma explicação fisiologicamente plausível e um mecanismo diretamente demonstrado.
Os próprios autores reconhecem a necessidade de investigar diretamente a influência específica de processamento cortical, estado psicológico e tomada de decisão sobre ROMmax. Lima reforça essa cautela ao afirmar que, no nível cerebral, as evidências ainda são mais iniciais. Cabido acrescenta que estudos em humanos sustentam modulação neural durante o alongamento, inclusive alterações temporárias em reflexos espinais, mas isso não demonstra que essa modulação seja a única responsável pelo aumento da amplitude.
A fronteira fica mais clara quando se chega aos processos cognitivos. Cabido considera sustentada a participação da percepção e da modulação neural, mas avalia que a influência causal específica de atenção, motivação, confiança ou decisão consciente permanece hipotética. Ingram, consultado como especialista independente, também evitou extrapolar e classificou processamento cortical e estado psicológico como temas fora de seu escopo.
Sabemos que o sistema nervoso recebe e processa informações durante o movimento. Determinar quanto processos cognitivos superiores explicam o ponto em que uma pessoa decide parar é uma pergunta diferente.
E essa resposta ainda não está estabelecida.
Por isso, seria incorreto concluir que “a flexibilidade está no cérebro”, que o cérebro determina diretamente o limite de flexibilidade ou que a mente seja mais importante do que músculos, tendões e articulações.
O que realmente muda quando ficamos mais flexíveis?
A essa altura, seria conveniente ter uma resposta simples.
Não temos.
Dependendo do tipo, da duração, da dose e do método de treinamento, podem ocorrer adaptações mecânicas, mudanças relacionadas às sensações experimentadas durante o alongamento ou uma combinação desses mecanismos.
A contribuição de Ingram ajuda a tornar essa diferença concreta no alongamento estático: imediatamente após uma sessão, a redução da rigidez parece ter maior peso; depois de semanas de treinamento, a maior tolerância ao alongamento ganha importância.
Algumas explicações que parecem intuitivas também continuam sem demonstração suficiente em humanos.
A revisão destaca, por exemplo, que a relação entre o número de sarcômeros — unidades microscópicas que compõem as fibras musculares — e ROMmax ainda não foi diretamente investigada em pessoas. Componentes importantes em escala microscópica também não explicam necessariamente, sozinhos, o comportamento do músculo inteiro.
Lima chama atenção para outro equívoco: tratar a flexibilidade como uma característica fixa ou determinada exclusivamente por músculos e tendões. Ela pode ser modificada pelo treinamento mesmo após a maturação, e o ganho de amplitude pode combinar adaptações periféricas e neurais, além de mudanças na tolerância ao alongamento.
Isso impede respostas fáceis.
Não existe evidência para dizer que determinada porcentagem da flexibilidade está nos tecidos e outra no cérebro. Tampouco podemos concluir que aumentar ROMmax significa simplesmente “alongar” permanentemente um músculo.
O que podemos afirmar com maior segurança é mais preciso: a amplitude máxima que conseguimos alcançar não funciona como uma leitura direta da rigidez dos nossos tecidos.
Isso muda o treino?
Por enquanto, menos do que se poderia imaginar.
A revisão ajuda a explicar melhor os mecanismos envolvidos na flexibilidade, mas não estabelece uma nova estratégia de treinamento baseada em processos cognitivos. Cabido observa ainda que medir apenas ROMmax não permite concluir que os tecidos passaram a oferecer menor resistência: relação torque–ângulo e torque tolerado no limite podem ajudar a distinguir mudanças mecânicas e sensoriais.
Ingram considera o alongamento estático uma forma eficaz de melhorar ROM e um ponto de partida razoável para muitas pessoas. Para demandas mais altas de flexibilidade, ele cita métodos como PNF, alongamento balístico, loaded stretching, isométricos e exercícios excêntricos como possibilidades adicionais. Sua conclusão prática, porém, é menos prescritiva: a escolha depende do indivíduo e dos objetivos específicos.
Lima também considera promissora a investigação de estratégias que levem em conta mecanismos neurais, mas ressalta que essa área ainda precisa ser mais estudada. Cabido converge para uma aplicação mais conservadora: os dados apoiam protocolos progressivos, toleráveis e ajustados ao objetivo, sem transformar dor intensa, atenção, motivação ou decisão em técnicas comprovadas.
Isso é particularmente importante para propostas envolvendo música, neuromodulação ou outras intervenções voltadas ao processamento neural. A revisão trata intervenções direcionadas à percepção e à tomada de decisão como uma frente para pesquisas futuras, não como recomendação estabelecida.
O estudo não demonstra que mindfulness, música, relaxamento ou neuromodulação sejam capazes de aumentar ROMmax de maneira clinicamente relevante. Também não sustenta a ideia de que aumentar deliberadamente a tolerância à dor seja uma estratégia para ganhar amplitude.
Por enquanto, a principal contribuição está em entender melhor o que acontece quando ficamos mais flexíveis, e não em oferecer uma nova receita universal para chegar lá.
Um limite entre corpo e percepção
A revisão de Lima e Blazevich é narrativa. Os pesquisadores reuniram diferentes tipos de estudos para construir uma interpretação dos mecanismos envolvidos, em vez de realizar uma meta-análise capaz de estimar o tamanho do efeito de cada componente.
Isso permite colocar na mesma discussão estruturas microscópicas do músculo, propriedades de tendões e articulações, receptores sensoriais e processamento pelo sistema nervoso. Mas também impõe um limite importante: não sabemos quanto cada um desses componentes pesa na amplitude final de uma pessoa.
Talvez esse seja justamente o ponto mais interessante da revisão.
Quando alguém consegue avançar alguns centímetros a mais em um alongamento, não podemos olhar apenas para o músculo e concluir que ele ficou mais comprido. Mas também não podemos olhar para o cérebro e concluir que o limite estava apenas ali.
Entre os dois existe um organismo inteiro: tecidos que oferecem resistência, receptores que detectam o que acontece e um sistema nervoso que recebe e processa essas informações.
Já existem boas evidências de que amplitude máxima de movimento e rigidez não são a mesma coisa. As contribuições de Lima, Ingram e Cabido reforçam que ganhar amplitude pode envolver mecanismos distintos — mecânicos e sensoriais — e que sua importância pode variar conforme treinamento, dose, método e tempo.
Descobrir exatamente quanto cada mecanismo — mecânico, sensorial e, possivelmente, cognitivo — determina até onde conseguimos chegar continua sendo uma questão aberta para a ciência.
Sobre o estudo
Artigo: Mechanisms Influencing Maximum Joint Range of Motion and Stiffness: A Narrative Review
Autores: Camila D. Lima e Anthony J. Blazevich
Periódico: Sports Medicine
Ano: 2026
DOI: 10.1007/s40279-026-02491-8
Tipo: revisão narrativa
Os autores informam que não houve financiamento relacionado à revisão e declaram não possuir conflitos financeiros relacionados ao conteúdo do artigo.
Referências principais
Lima CD, Blazevich AJ. Mechanisms Influencing Maximum Joint Range of Motion and Stiffness: A Narrative Review. Sports Medicine. 2026. DOI: 10.1007/s40279-026-02491-8.
Ingram LA et al. Mechanisms Underlying Range of Motion Improvements Following Acute and Chronic Static Stretching: a systematic review, meta-analysis and multivariate meta-regression. Sports Medicine. 2025;55(6):1449–1466.
Cabido CET et al. Acute effect of constant torque and angle stretching on range of motion, muscle passive properties, and stretch discomfort perception. Journal of Strength and Conditioning Research. 2014;28(4):1050–1057. DOI: 10.1519/JSC.0000000000000241.