Um estudo brasileiro publicado no International Journal of Obesity encontrou que 23,8% dos participantes que relataram uso atual ou anterior de semaglutida ou liraglutida para perda de peso haviam usado esses medicamentos sem prescrição médica em pelo menos uma ocasião. A pesquisa incluiu 860 adultos residentes no Brasil e foi conduzida por meio de questionário online entre novembro de 2024 e abril de 2025.
O resultado chama atenção porque quase um em cada quatro participantes relatou automedicação, mas o número não deve ser interpretado como estimativa da prevalência nacional. A amostra foi de conveniência, predominantemente feminina e com alta escolaridade, e reuniu pessoas com acesso à internet e maior exposição a ambientes digitais. Os próprios autores afirmam que os achados não podem ser extrapolados para toda a população brasileira.
Quem apareceu com maior frequência
Na análise ajustada, o uso sem prescrição foi mais frequente entre participantes classificados sem obesidade no momento do questionário, entre aqueles que não frequentavam centros de treinamento físico e entre profissionais de saúde. Em sentido oposto, a frequência foi menor entre pessoas casadas, participantes com diabetes e aqueles com histórico de transtornos alimentares.
Um cuidado central está em não transformar essas associações em explicações causais. O estudo é transversal: características clínicas e comportamento de uso foram observados no mesmo levantamento, sem estabelecer o que aconteceu primeiro.
Sem obesidade no questionário não significa sem indicação no início
A interpretação do grupo classificado sem obesidade exige especial cautela. O coautor Lucas S. Matzenbacher, pesquisador da Organização Acadêmica de Pesquisa MOVE e Hospital Moinhos de Vento, explicou ao Prime Health Report que peso e altura foram autorrelatados e que o IMC foi calculado com base no peso informado no momento em que o participante respondeu ao questionário.
“O IMC informado não necessariamente corresponde àquele que o participante apresentava no momento em que iniciou o uso.”
Isso significa que uma pessoa poderia, por exemplo, ter iniciado o tratamento com obesidade e ter perdido peso antes de responder à pesquisa. A autora e Profª da Escola de Medicina da PUCRS, Taíse Rosa de Carvalho, confirmou ao PHR que o banco de dados contém os pesos anteriores ao uso, mas que esses dados serão analisados em outro artigo e ainda não podem ser divulgados.
Para o médico Daniel Padilha, do Longevitar | Medicina Regenerativa, o IMC isolado também não basta para julgar retrospectivamente se uma indicação foi adequada. Segundo ele, a avaliação clínica precisa considerar histórico e evolução do peso, comorbidades metabólicas e cardiovasculares, composição corporal, hábitos de vida, tratamentos prévios, contraindicações e relação entre riscos e benefícios.
Esse ponto muda a leitura do achado: o estudo mostra maior frequência de automedicação entre participantes sem obesidade no momento do questionário, mas não demonstra que todos eles estavam sem indicação clínica quando iniciaram o medicamento.
Profissionais de saúde: associação não equivale a autoprescrição médica
Outro resultado que exige precisão é a maior frequência de uso sem receita entre profissionais de saúde. A categoria não era formada apenas por médicos. Segundo Matzenbacher, incluía também profissionais de enfermagem, farmácia, nutrição, fisioterapia, biomedicina e educação física.
“Maior familiaridade com o tratamento e facilidade de acesso são explicações plausíveis, mas que devem ser avaliadas em estudos futuros.”
Os pesquisadores não fizeram análise separada por profissão e não investigaram diretamente as razões que levaram à automedicação. Por isso, não é correto apresentar o achado como comportamento específico de médicos ou como evidência de autoprescrição.
De onde partiu a decisão de usar sem receita
Após nova consulta ao banco de dados feita a pedido do Prime Health Report, Taíse Rosa de Carvalho informou que, entre os participantes que relataram automedicação, a maior parte afirmou que o uso havia sido ideia própria ou indicação de amigo ou familiar. Apenas uma pequena parcela mencionou indicação por outro profissional de saúde não médico.
A pesquisadora não forneceu números absolutos ou percentuais para essa distribuição. Por isso, o dado deve ser lido apenas de forma qualitativa e não permite estimar o peso exato de cada uma dessas origens.
Uso sem prescrição não é o mesmo que uso off-label
Padilha também chama atenção para uma distinção importante. Uso sem prescrição ocorre quando a pessoa utiliza o medicamento sem avaliação e prescrição médica. Uso off-label, por outro lado, ocorre quando um médico prescreve o medicamento fora de alguma indicação prevista em bula, mas com avaliação individualizada e justificativa clínica.
Há ainda uma terceira situação: uma prescrição potencialmente inadequada, em que a relação entre indicação, riscos e benefícios pode não ser favorável para aquele paciente. Para avaliar isso, é necessário conhecer o contexto clínico individual. As três situações, portanto, não devem ser tratadas como equivalentes.
A mudança na regra veio depois da coleta
Os dados foram coletados antes da exigência de retenção da receita para esses medicamentos no Brasil. Taíse informou que o grupo ainda não realizou uma avaliação posterior à mudança regulatória.
Para Matzenbacher, repetir o levantamento depois da nova regra seria importante, mas metodologicamente mais difícil. Como as farmácias passaram a ser obrigadas a reter a receita no momento da venda, pessoas que continuam praticando automedicação podem se tornar mais difíceis de identificar e menos dispostas a relatar esse comportamento, aumentando o risco de subnotificação.
Assim, uma eventual comparação entre os períodos anterior e posterior à mudança precisa considerar não apenas a frequência declarada de uso sem receita, mas também alterações na forma de acesso e no próprio comportamento de resposta dos participantes.
O que o estudo permite concluir
A pesquisa oferece uma fotografia de um grupo específico de usuários de semaglutida e liraglutida no Brasil antes da retenção obrigatória da receita. Nessa amostra, 23,8% relataram pelo menos um episódio de uso sem prescrição médica, e algumas características apareceram associadas a maior ou menor frequência dessa prática.
O estudo, porém, não demonstra causalidade, não representa toda a população brasileira e não permite reconstruir, apenas pelo IMC observado no questionário, se cada participante tinha ou não indicação clínica quando iniciou o tratamento.
Com os esclarecimentos dos autores e a avaliação independente, o ponto central fica mais preciso: ausência de prescrição, uso off-label e indicação clínica potencialmente inadequada são situações diferentes. Para o leitor, essa distinção é essencial para interpretar os números sem transformar uma associação observacional em julgamento sobre a adequação individual de tratamentos.
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Fonte científica principal: Carvalho TR et al. Self-medication with GLP-1 receptor agonists among Brazilian Adults: findings from a web-based survey. International Journal of Obesity. 2026. DOI: 10.1038/s41366-026-02186-0.
Fontes ouvidas pelo Prime Health Report: Taíse Rosa de Carvalho; Lucas S. Matzenbacher; Daniel Padilha, do Longevitar | Medicina Regenerativa.