O Brasil deve registrar 13,1 mil novos casos de câncer de bexiga por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A doença é mais frequente entre os homens, que devem concentrar cerca de 9 mil diagnósticos anuais. Em 2024, 5.483 pessoas morreram em decorrência desse tipo de câncer no país.
O câncer de bexiga começa nas células que revestem a parte interna do órgão e pode ficar restrito às camadas mais superficiais ou chegar ao músculo. Nesse último caso, é chamado de câncer de bexiga músculo-invasivo e apresenta maior risco de se espalhar para outras partes do corpo.
“Nas camadas mais internas, tem um comportamento mais local. Quando chega ao músculo e atinge a circulação linfática, a doença se torna mais letal”, explica Fernando Korkes, coordenador do Departamento de Uro-Oncologia da Sociedade Brasileira de Urologia.
Para parte dos pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo, o tratamento inclui a cirurgia para retirada da bexiga, seguida de acompanhamento para identificar possíveis sinais de retorno da doença.
“Mesmo retirando toda a doença visível com a cirurgia, essas células podem permanecer no organismo e, posteriormente, provocar uma recidiva. Por isso, o tratamento atualmente não deve olhar apenas para o tumor que conseguimos retirar, mas também para a possível doença microscópica”, afirma o urologista Renato Mariano, com atuação em uro-oncologia.
Tomografias e ressonâncias são utilizadas nesse acompanhamento e permitem identificar alterações ou lesões suspeitas. A quantidade de células tumorais que permanece após a cirurgia, entretanto, pode ser pequena e não formar uma lesão identificável nas imagens.
DNA do tumor pode ser encontrado no sangue
As células cancerígenas podem liberar na corrente sanguínea pequenos fragmentos de seu material genético, que carregam características do tumor do qual se originaram. Esse material recebe o nome de DNA tumoral circulante, ou ctDNA, e pode ser pesquisado por meio de uma amostra de sangue.
A análise é um tipo de biópsia líquida, nome utilizado para exames que procuram em fluidos corporais componentes relacionados ao tumor. Depois da cirurgia para retirada do câncer de bexiga, a identificação de ctDNA no sangue pode indicar a presença de células tumorais em quantidade muito pequena no organismo, condição chamada de doença residual molecular e associada a maior risco de recidiva.
“Um ctDNA positivo não significa necessariamente que já exista uma metástase visível. Ele indica principalmente que o paciente tem maior probabilidade de apresentar uma recidiva”, explica Mariano.
A ausência de ctDNA costuma estar associada a um prognóstico mais favorável, embora não descarte completamente a presença de doença residual, já que a quantidade de DNA liberada pelo tumor pode ficar abaixo do limite de detecção do teste.
“É um resultado muito favorável, porque significa que não encontramos sinais de doença residual naquele momento. Mas não significa risco zero. O tumor pode ser muito pequeno ou liberar pouco DNA, levando a um resultado falso-negativo. Por isso, o ctDNA negativo não substitui o acompanhamento tradicional”, completa o urologista Mariano.
Além de fornecer informações sobre o risco de retorno da doença, a análise do ctDNA vem sendo estudada para orientar decisões sobre o tratamento após a cirurgia e identificar pacientes que podem obter maior benefício com uma terapia adicional.
Estudo avaliou uso do ctDNA para orientar tratamento
Essa possibilidade foi avaliada no IMvigor011, estudo clínico internacional de fase 3 que acompanhou 761 pessoas com câncer de bexiga músculo-invasivo submetidas à retirada da bexiga e sem sinais da doença nos exames de imagem.
Publicado no New England Journal of Medicine em 2025, o estudo teve participação de centros brasileiros. O oncologista Ariel Kann, head do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, participou da pesquisa e é um dos autores do artigo científico.
“A principal pergunta do estudo foi avaliar se o monitoramento seriado do DNA tumoral circulante (ctDNA, um tipo de biópsia líquida) no sangue após a cirurgia de remoção da bexiga (cistectomia) consegue identificar pacientes com doença residual molecular (MRD) que se beneficiam do tratamento adjuvante (também chamado de ‘preventivo’) com a imunoterapia atezolizumabe em comparação ao placebo”, explica Kann.
Entre os participantes que tiveram ctDNA positivo e atenderam aos demais critérios da pesquisa, 250 foram selecionados para a comparação entre os tratamentos. Desse grupo, 167 receberam atezolizumabe, uma imunoterapia, e 83 receberam placebo.
O tratamento reduziu em 36% o risco de recidiva ou morte e em 41% o risco de morte durante o período analisado. O tempo mediano sem retorno da doença ou morte foi de 9,9 meses entre os pacientes que receberam atezolizumabe e de 4,8 meses no grupo placebo.
Entre 357 pacientes que permaneceram com ctDNA negativo e não receberam tratamento sistêmico após a cirurgia, 95,4% estavam vivos e sem retorno da doença após um ano e 88,4% após dois anos. Cerca de 11%, entretanto, apresentaram recidiva, o que impede que um resultado negativo seja interpretado como ausência definitiva de risco.
Exame complementa acompanhamento por imagem
A identificação de doença residual molecular pelo ctDNA não elimina a necessidade dos exames já utilizados no acompanhamento do câncer de bexiga, porque os métodos fornecem informações diferentes. Enquanto a análise do sangue procura alterações em nível molecular, os exames de imagem permitem localizar lesões que já podem ser visualizadas.
“A tomografia mostra onde existe uma alteração; a cistoscopia permite olhar diretamente para dentro da bexiga; e o ctDNA procura sinais moleculares da doença. Hoje, portanto, o ctDNA deve ser visto como complementar, e não como substituto dos exames convencionais”, explica Mariano.
Uma única coleta também não é suficiente para acompanhar a evolução molecular da doença, já que o resultado pode se tornar positivo somente meses depois da cirurgia.
“Ainda é cedo para abandonarmos completamente as imagens e confiarmos exclusivamente na biópsia líquida. Além disso, 40,8% dos pacientes positivos só positivaram em testes subsequentes ao longo do acompanhamento. Por isso, a confiança na antecipação depende de realizar um monitoramento seriado (coletas a cada 6 semanas no primeiro ano) e não apenas um único exame isolado logo após a cirurgia”, afirma Kann.
Urina também é pesquisada como fonte de DNA tumoral
Além do sangue, a urina vem sendo estudada como fonte de informações moleculares sobre o câncer de bexiga. Por permanecer em contato direto com a superfície interna do órgão, ela pode conter fragmentos de DNA liberados pelo tumor. Esse material, chamado de DNA tumoral urinário, ou utDNA, é investigado principalmente como uma forma de identificar alterações relacionadas à doença localizada na própria bexiga.
“No sangue, procuramos fragmentos do tumor que chegaram à circulação. Na urina, procuramos DNA liberado diretamente pelo tumor na bexiga. Como o câncer de bexiga está em contato direto com a urina, a análise urinária é muito interessante e pode ter um papel importante no futuro, especialmente na vigilância da bexiga”, explica Mariano.
A possibilidade de combinar informações obtidas no sangue e na urina foi um dos temas apresentados no Simpósio de Cânceres Geniturinários da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, a ASCO, em 2026. Uma análise do estudo NIAGARA avaliou os dois tipos de amostra em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo que receberam tratamento antes da retirada do órgão.
Os resultados mostraram uma associação entre o DNA tumoral encontrado na urina antes da cirurgia e a resposta observada após o tratamento. Entre os pacientes que tiveram resultados negativos tanto para ctDNA no sangue quanto para utDNA na urina, 73,6% chegaram à cirurgia sem tumor residual na bexiga, comprometimento de linfonodos ou metástases. Entre aqueles com ctDNA negativo no sangue, mas utDNA positivo na urina, essa proporção foi de 24,2%.
A diferença reforça a possibilidade de que as duas amostras forneçam informações complementares. Um resultado negativo no sangue, por exemplo, não necessariamente exclui a presença de doença restrita à bexiga, que pode ser identificada por outros métodos.
Essa limitação também apareceu em uma análise dos estudos RETAIN apresentada no mesmo encontro. O ctDNA negativo no sangue esteve associado ao controle da doença metastática, mas não identificou de forma confiável as recidivas que permaneceram restritas à bexiga. Os pesquisadores apontaram que estudos futuros sobre preservação do órgão podem se beneficiar da combinação do monitoramento seriado do ctDNA no sangue com a pesquisa de DNA tumoral na urina.
Por enquanto, os achados não permitem utilizar o resultado de uma amostra de sangue ou urina isoladamente para decidir se um paciente pode evitar a retirada da bexiga.
Uso mais amplo enfrenta limitações
As informações obtidas por meio desses exames podem contribuir para diferenciar pacientes com riscos distintos de retorno da doença e, em situações específicas, orientar a escolha de tratamentos adicionais. As evidências disponíveis não permitem utilizar uma análise molecular isoladamente para todas as decisões relacionadas ao câncer de bexiga.
O próprio IMvigor011 avaliou um grupo específico de pacientes, todos com câncer de bexiga músculo-invasivo, submetidos à retirada da bexiga e sem evidências da doença nos exames de imagem. Outras possibilidades, como utilizar informações moleculares para acompanhar a resposta ao tratamento ou auxiliar na avaliação de estratégias de preservação da bexiga, permanecem em investigação.
No Brasil, o acesso também é um obstáculo. A realização dos testes depende de tecnologia especializada e pode envolver o envio de tecido tumoral e plasma, além de custos elevados. “Esses testes chegam ao Brasil muito mais caros”, afirma Korkes.
Kann aponta entre os desafios para estender o uso do ctDNA no país a avaliação regulatória, a cobertura pelos sistemas público e privado e a capacitação de laboratórios para realizar os testes com padronização e rigor analítico.
Brasil reúne diferentes estratégias para o tratamento do câncer de bexiga
O tratamento do câncer de bexiga no Brasil conta com diferentes abordagens, que podem incluir cirurgia, quimioterapia, radioterapia e imunoterapia, escolhidas de acordo com o estágio da doença e as características de cada paciente. O país também participa de pesquisas internacionais que investigam novas formas de tratar e acompanhar esses tumores.
Em 2026, foram publicadas as primeiras Diretrizes Brasileiras Conjuntas para o Tratamento do Câncer de Bexiga, elaboradas por especialistas da Sociedade Brasileira de Urologia, Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Sociedade Brasileira de Radioterapia e Sociedade Brasileira de Patologia, com participação do Instituto Oncoguia. O documento reúne recomendações para diferentes fases da doença e considera as possibilidades de tratamento no SUS e na saúde suplementar.
Segundo Korkes, coordenador do Departamento de Uro-Oncologia da Sociedade Brasileira de Urologia e da elaboração das diretrizes, a quantidade de tratamentos disponíveis cresceu nos últimos anos, o que tornou necessária uma referência que ajudasse médicos e pacientes a compreender as alternativas indicadas em diferentes situações. O documento organiza essas informações de acordo com o quadro clínico e também com o sistema de saúde no qual o paciente é atendido.
______________
Créditos
Dr. Fernando Korkes - coordenador do Departamento de Uro-Oncologia da Sociedade Brasileira de Urologia - CRM-SP 108697 | RQE 64083
Dr. Ariel Kann - head do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz - CRM: 112002 | RQE 45030
Dr. Renato Mariano - urologista com atuação em uro-oncologia - CRM 132086 | RQE 154043