Ao fim de um treino puxado, o relógio vibra e, junto com a frequência cardíaca e a distância percorrida, aparece um índice de performance que, até pouco tempo, poucos sabiam interpretar: o VO2 max. Hoje, ele faz parte do vocabulário de quem corre, pedala ou simplesmente acompanha a própria saúde pelo pulso. Nas redes sociais, virou uma espécie de “troféu digital”, usado para validar e comparar o esforço.
O índice tem mais de 100 anos de história e foi criado para medir quanto oxigênio o corpo consegue captar e utilizar durante um esforço máximo. Há décadas, o VO2 max é obtido por meio da ergoespirometria, aquele teste com máscara em uma esteira ou bicicleta realizado em laboratórios de fisiologia do exercício e em centros de treinamento de alto rendimento, assim como em algumas clínicas e hospitais.
O que mudou foi a escala. Marcas voltadas para atletas de resistência integraram algoritmos que conseguiam estimar o índice, cruzando os dados de frequência cardíaca com o ritmo da corrida (via GPS). De exame reservado a atletas e pacientes, o número passou a aparecer, em segundos, na tela de qualquer smartwatch ou anel inteligente.
A partir de 2018, o interesse pelo VO2 max explodiu, após um estudo da Cleveland Clinic, com mais de 122 mil pacientes, associar níveis mais altos de consumo máximo de oxigênio a um menor risco de morte por diferentes causas. Não demorou para que o índice, até então mais restrito ao universo esportivo, ganhasse um apelido ambicioso: “escore da longevidade”.
Mas será que uma estimativa que pisca no pulso tem o mesmo peso científico da medição feita em laboratório — e o que, de fato, esse número deveria mudar na rotina de quem o vê todos os dias?
Por que o VO2 max virou sinônimo de expectativa de vida?
Fisiologicamente, o VO2 max "mede a capacidade do corpo de levar oxigênio até os músculos e transformá-lo em energia", resume, em entrevista ao Prime Health Report, o cardiologista Ricardo Stein, professor associado de Clínica Médica na UFRGS e uma das principais referências brasileiras em teste cardiopulmonar de exercício.
O índice reflete o trabalho conjunto de pulmões, coração, vasos sanguíneos e músculos. Por integrar tantos sistemas ao mesmo tempo, ele funciona como
uma espécie de termômetro de saúde geral — e ajuda a explicar por que seu valor passou a ser associado também à saúde e à longevidade.
Isso não significa, porém, que um VO2 max mais alto, por si só, faça alguém viver mais. "Os estudos mostram uma associação muito consistente: quanto maior o VO2 max, menor tende a ser o risco de morte, inclusive por doenças cardiovasculares", explica Stein — mas ele é, sobretudo, "um marcador muito poderoso da saúde e da capacidade funcional do organismo", não uma garantia isolada de vida mais longa.
Essa capacidade cardiorrespiratória também não é fixa: tende a cair, em média, de 5% a 10% por década a partir dos 30 anos, segundo o cardiologista. Mas a intensidade da perda varia de acordo com fatores como genética, sexo e, principalmente, nível de atividade física. Manter o treinamento pode atenuar bastante a queda.
Os relógios inteligentes estimam o VO2 max com precisão?
Wearables não medem o VO2 max diretamente: eles fazem uma estimativa a partir de diferentes informações. Em entrevista ao PHR, Marco Uchida, chefe do Laboratório de Cinesiologia Aplicada da Unicamp, explicou que os algoritmos combinam características da pessoa — idade, sexo e massa corporal — com dados coletados durante o exercício, entre eles ritmo, distância e frequência cardíaca.
Modelos vestíveis mais recentes também incorporam sensores de fotopletismografia, aquela tecnologia dos relógios e pulseiras que têm LEDs na parte de trás: o sensor ilumina o pulso e mede quanto dessa luz é absorvida ou refletida pelo sangue.
Mas toda essa tecnologia ainda não elimina uma diferença importante em relação ao laboratório. O padrão-ouro para medir o VO2 max é a ergoespirometria — "aquele teste que vemos nas reportagens sobre futebol, usando máscara e analisador de gases", compara Uchida.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2022 pela rede internacional INTERLIVE, citada pelo professor da Unicamp, mostrou que os relógios podem apresentar uma margem de erro de 5% a 10%, dependendo da marca e do modelo. Segundo ele, os aparelhos mais voltados ao esporte tendem a chegar mais perto da medida de laboratório.
Por isso, mais importante do que se prender ao valor de um único dia é observar como ele se comporta ao longo do tempo. “A tecnologia vestível... compara você com você mesmo”, diz Uchida. A sequência de medidas permite perceber evolução, estagnação ou piora e, se necessário, ajustar o treino com a orientação de um profissional de Educação Física.
Dá para melhorar o índice — mas até que ponto isso importa?”
A boa notícia é que o VO2 max pode melhorar mesmo depois dos 50 ou 60 anos. “A idade não impede uma melhora importante do VO2 max”, afirma Stein. Pessoas que começam a treinar nessa fase podem obter ganhos expressivos com exercícios aeróbicos regulares, treino intervalado e musculação. O objetivo não é recuperar o VO2 max da juventude, mas preservar a capacidade física e retardar parte da perda associada ao envelhecimento.
O problema é que o risco de transformar um índice de bem-estar em fonte de ansiedade também é real — e está nos detalhes de como se lê o dado. Uchida aponta dois erros comuns: checar o VO2 max todos os dias — "sempre existe um erro embutido", avisa — e comparar valores obtidos em condições diferentes. Percursos, distâncias, topografia e velocidades distintas podem produzir números que não são diretamente comparáveis.
No fim, o VO2 max carrega uma mensagem simples por trás da sigla técnica: capacidade cardiorrespiratória é algo que se treina e começa a declinar cedo. Como resume Stein, mais importante do que "atingir um número específico é estar acima da média para sua faixa etária e, principalmente, manter ou melhorar o condicionamento ao longo do tempo" — um objetivo bem mais saudável do que perseguir um escore isolado no pulso.