Um registro prospectivo em sete centros da Suíça acompanhou 333 homens com câncer de próstata que havia se espalhado para outras partes do corpo e avançava apesar da supressão da testosterona. Eles receberam lutécio-177 ligado ao PSMA-I&T. Entre os 308 pacientes com avaliação do PSA após o início da terapia, 137 tiveram queda de pelo menos 50% no marcador, uma taxa de 44,5%.
Publicado no The Lancet Medical Imaging & Theranostics, o estudo teve a segurança como objetivo principal e a resposta do PSA como objetivo secundário. Os resultados descrevem o tratamento na rotina dos serviços. Como não houve grupo de comparação, não é possível determinar se a terapia prolongou a vida em relação ao cuidado padrão, nem estimar a dimensão de um eventual benefício.
O que o PSA mostra
O PSA é uma proteína medida no sangue para acompanhar o câncer de próstata. Uma queda expressiva durante o tratamento é um sinal de atividade contra a doença, mas não substitui a avaliação dos sintomas, das imagens e do estado geral do paciente.
“Isoladamente, ele não permite concluir que o paciente viverá mais nem que terá melhor qualidade de vida”, explica o urologista e cirurgião geral Romulo Nunes, ao comentar o papel do PSA.
Dos 333 homens tratados, cinco passaram a outros estudos após o primeiro ciclo e 20 morreram antes da avaliação laboratorial programada. Esses pacientes ficaram fora do cálculo da resposta do PSA. A exclusão precisa ser considerada ao interpretar a taxa de 44,5%.
Os pesquisadores também relataram sobrevida global mediana de 13,2 meses entre os 333 pacientes. A mediana corresponde ao ponto em que a estimativa de sobrevida chega a 50%. Essa análise foi exploratória, acrescentada após a definição inicial dos objetivos da pesquisa. O valor descreve o que foi observado nesse grupo; não mede o tempo de vida acrescentado pelo radiofármaco.
Como a terapia chega ao tumor
A terapia combina uma molécula que reconhece o PSMA, proteína presente na superfície de muitas células do câncer de próstata, com o lutécio-177, um elemento radioativo. Essa combinação permite levar radiação às células que expressam o alvo.
A fase da doença avaliada no registro é chamada de câncer de próstata metastático resistente à castração. Nela, o tumor progride mesmo com a testosterona mantida em níveis baixos pelo tratamento. A maioria dos participantes havia recebido outros tratamentos contra o câncer, embora 86 dos 333 homens, ou 26%, não tivessem passado por quimioterapia.
A seleção incluiu PET-PSMA, exame de imagem que mostra a presença do alvo nas lesões, e avaliação das condições clínicas. As equipes locais interpretaram os exames, sem revisão central das imagens. As diferenças entre serviços tornam a amostra e o acompanhamento menos uniformes.
Os cuidados com a segurança
As alterações mais relevantes envolveram as células do sangue. A anemia grau 3 ocorreu em 26 dos 295 pacientes com dados disponíveis, ou 8,8%. A linfopenia grau 3 foi registrada em 54 de 256, ou 21,1%. Essa alteração é a redução dos linfócitos, um tipo de célula de defesa. O grau 3 indica uma alteração grave na escala usada para classificar os eventos adversos. Os totais avaliados variam porque alguns exames não estavam disponíveis em todos os centros.
Os autores consideram incerta a relevância clínica da linfopenia observada. Sua frequência não demonstra, por si só, aumento de infecções nesse grupo. Durante a observação, não foram registrados eventos adversos surgidos após o início do tratamento classificados como grau 4 ou 5, categorias que indicam risco de vida ou morte, respectivamente.
Na avaliação dos rins, houve aumento de creatinina grau 1 ou 2 em 47 de 295 pacientes, sem toxicidade renal grau 3 ou maior. O acompanhamento mediano de 12 meses, porém, limita as conclusões sobre danos tardios, inclusive aqueles que podem surgir depois da exposição à radiação.
Nunes destaca que a avaliação clínica considera a medula óssea, os rins, a capacidade do paciente de realizar atividades e as terapias anteriores. O urologista também chama atenção para obstruções urinárias que possam comprometer a função renal. São considerações do especialista sobre a prática clínica; o registro não apresentou uma análise específica sobre obstrução urinária.
Segundo o especialista, a escolha do tratamento envolve urologia, oncologia clínica, medicina nuclear e radio-oncologia. A equipe discute o benefício esperado, os efeitos adversos, a logística e as preferências do paciente.
Dor e qualidade de vida
Os resultados de dor e qualidade de vida vieram de questionários aplicados em dois centros. Entre 164 pacientes com dados disponíveis, houve melhora da dor em 24 e piora em 23. Na qualidade de vida, houve melhora em 15 e piora em 18. Esses números não indicam melhora generalizada nem permitem atribuir as mudanças à terapia, já que não houve comparação com outro grupo.
A avaliação acrescenta a perspectiva dos pacientes, mas abrange apenas parte dos 333 homens tratados.
PSMA I&T e PSMA 617
O PSMA-I&T usado no registro suíço é diferente do PSMA-617, ligante presente no Pluvicto registrado no Brasil. Ligante é a molécula que reconhece o alvo e carrega o componente radioativo. Os dois produtos têm o mesmo alvo e utilizam lutécio-177, mas suas estruturas químicas não são idênticas e podem influenciar a distribuição e a eliminação do medicamento.
Nunes ressalta que os produtos não podem ser considerados automaticamente intercambiáveis. Os resultados de um ligante não devem ser transferidos diretamente para o outro. Assim, o registro suíço acrescenta informações sobre o PSMA-I&T sem alterar, por si só, as indicações do tratamento no Brasil.
Para estabelecer vantagens do PSMA-I&T sobre outras opções e definir a melhor sequência de uso, são necessários estudos comparativos. A avaliação precisa considerar sobrevida, sintomas, qualidade de vida e segurança, além da queda do PSA.
Fontes da reportagem
Chirindel A et al. PSMA-targeted radioligand therapy with [177Lu]Lu-PSMA-I&T in metastatic castration-resistant prostate cancer: a prospective, multicentre, Swiss registry study. The Lancet Medical Imaging & Theranostics, 2026. DOI: https://doi.org/10.1016/j.lanmit.2026.100010. Artigo e apêndice suplementar. Contribuição de Romulo Nunes, urologista e cirurgião geral, encaminhada à redação.